IMG_MUAMBA ("imagem_muamba") investiga o que acontece com imagens produzidas para desaparecer. A partir de fotografias vernaculares encontradas em portais de notícias brasileiros, o projeto acompanha sua transformação em arquivo, mercadoria, publicação e obra.
todos os dias, milhares de fotografias são produzidas por pessoas comuns para registrar acontecimentos cotidianos ou extraordinários. uma moradora fotografa a rua alagada em frente à sua casa. um familiar registra o cartaz de uma pessoa desaparecida. um motorista documenta um acidente na estrada. um vizinho filma a fumaça de um incêndio que começa a se espalhar pelo bairro. essas imagens costumam nascer sem qualquer pretensão artística ou documental. são produzidas para informar alguém, alertar uma comunidade, compartilhar uma experiência ou simplesmente registrar um acontecimento. muitas delas, no entanto, não desaparecem. algumas atravessam uma fronteira invisível e passam a integrar portais de notícias, programas de televisão, redes sociais e bancos de dados. nesse percurso, deixam de ser vistas como fotografias e passam a funcionar como evidências. sua autoria raramente importa. seu enquadramento raramente importa. muitas vezes são reduzidas a uma legenda genérica: “imagem enviada por Whatsapp”. o que acontece quando imagens produzidas para desaparecer passam a circular como arquivo, mercadoria e obra? img_muamba investiga a vida econômica das imagens contemporâneas. o projeto parte da hipótese de que uma fotografia não possui um valor fixo. a mesma imagem pode ser lembrança pessoal, prova documental, conteúdo jornalístico, dado armazenado, mercadoria digital ou obra. o que muda não é apenas sua interpretação, mas sua posição dentro das redes pelas quais circula. a palavra muamba oferece uma chave para compreender esse processo. originária das línguas bantas da África Central, ela chegou ao brasil associada à circulação de mercadorias e passou a designar objetos que atravessam fronteiras por caminhos paralelos. uma muamba não é definida apenas por aquilo que é, mas pelos percursos que realiza. as imagens contemporâneas também. elas viajam entre aplicativos, servidores, redes sociais, portais de notícias, bancos de dados, plataformas comerciais, galerias, bibliotecas e coleções. a cada deslocamento assumem novas funções e novos significados. uma fotografia feita durante uma enchente pode tornar-se notícia nacional, ser armazenada em servidores, reproduzida por algoritmos, impressa em um objeto ou exibida em uma exposição. a imagem permanece praticamente a mesma. o que muda é o conjunto de relações que passa a atravessar. o projeto parte de um arquivo desenvolvido desde 2019 a partir de imagens encontradas em portais de notícias brasileiros. formado por fotografias produzidas por pessoas anônimas e posteriormente incorporadas ao fluxo informacional da mídia, esse arquivo constitui simultaneamente método, ferramenta e obra. não se trata de preservar imagens contra o desaparecimento, mas de acompanhar suas sucessivas transformações. a partir desse arquivo, as imagens reaparecem como ambiente digital de acesso público, instalação, publicação, filme e objeto. essas manifestações não são projetos independentes, mas diferentes estados da mesma matéria em circulação. as fotografias reunidas mantêm os vestígios de suas origens. são imagens comprimidas, reenviadas, recortadas e produzidas em condições precárias. mostram ruas inundadas, veículos destruídos, celebrações populares, cenas de violência, buscas por desaparecidos, incêndios, manifestações e acontecimentos cotidianos que, por algum motivo, passaram a circular para além de seus contextos imediatos. um aspecto importante do projeto consiste na refotografia dessas imagens utilizando dispositivos móveis. muitas delas foram originalmente produzidas por celulares e retornam ao arquivo por meio da mesma tecnologia que as gerou. a operação não busca recuperar um original, mas produzir uma nova imagem a partir de uma imagem já em circulação. a mesma ferramenta que registra o acontecimento registra também sua reaparição. a fotografia acumula uma nova camada de mediação e retorna ao fluxo transformada pelo próprio percurso que realizou. nesse sentido, cada imagem torna-se uma espécie de muamba de si mesma. essa operação também reflete uma transformação mais ampla da cultura visual contemporânea. se durante grande parte do século XX a apropriação esteve associada ao gesto de artistas que deslocavam imagens para questionar autoria e originalidade, hoje ela se tornou uma prática cotidiana. compartilhar, reenviar, capturar, recortar, repostar e recomprimir imagens faz parte da vida ordinária das redes. a apropriação deixou de ser uma exceção artística para tornar-se uma condição estrutural da circulação contemporânea das imagens. img_muamba observa a fotografia menos como representação do mundo do que como elemento em circulação. imagens atravessam plataformas, instituições e mercados; acumulam novas funções; participam de processos econômicos quase sempre invisíveis. mais do que investigar a origem das imagens, o projeto procura acompanhar aquilo que acontece depois e ao tratar a fotografia como carga, mercadoria e vestígio, este projeto propõe um arquivo sobre a vida econômica das imagens contemporâneas. um conjunto de fotografias anônimas, comprimidas, reproduzidas e redistribuídas que continuam viajando entre a esfera privada e a esfera pública, entre informação e mercadoria, entre documento e obra. imagens destinadas ao desaparecimento que persistem circulando, carregando consigo os gestos, os medos, os desejos e as catástrofes de seu tempo. romeu silveira, junho 2026
[13/01/2026, 11:47:30 PM] meu pai era vendedor e viajava de carro por todo o estado vendendo roupas. sempre que voltava, contava pra gente sobre os acidentes que via na estrada. tinha algo de horroroso, mas também de reconfortante, porque se ele estava vivo para contar era porque mais uma vez tinha voltado para casa.
[13/01/2026, 11:49:21 PM] eu lembro quando ele foi ao paraguai pela primeira vez. era a época do dólar 1x1 e meus pais estavam começando uma loja de produtos importados. para mim aquilo era o paraíso. hoje entendo que era muamba. mas ainda lembro do cheiro de plástico novo. o mesmo cheiro das caixas de VHS.
[13/01/2026, 11:52:09 PM] quando eu era pequeno, um ônibus de excursão tombou de uma ponte em santa catarina. as imagens mostravam os pertences dos passageiros espalhados pelo asfalto e boiando no rio. malas abertas, roupas, fotografias, memórias deixadas para trás. durante muito tempo também foi comum ver notícias sobre contêineres que caíam de caminhões e esmagavam ciclistas ou quem estivesse próximo. nós aprendemos a conviver com uma espécie de horror diário até perceber que o horror era estrutural.
[13/01/2026, 11:55:36 PM] na televisão, o horror era martelado o dia inteiro. acidentes, assassinatos, corrupção, violência doméstica, guerras. tudo transformado em imagens reproduzidas em looping, no café da manhã e no café da tarde. exibem o horror durante o dia e anunciam a salvação durante a madrugada.
[13/01/2026, 11:56:01 PM] quando eu era pequeno encontrei um livro sobre alcoolismo e acidentes de trânsito. as fotografias mostravam carros completamente desfigurados. muito antes de conhecer ballard ou cronenberg, essas imagens já ocupavam meu imaginário. pelo meu pai viver na estrada, sabíamos de todos os acidentes da semana, do mês e do ano. estou contando isso porque tudo isso me trouxe até este projeto. por trás dessas imagens banais e já esvaziadas existe uma náusea. penso em arthur jafa, penso em love is the message, the message is death. penso também em thomas hirschhorn insistindo que precisamos encarar certas imagens. será que por estarmos mergulhados em imagens perdemos a capacidade de nos sensibilizar? [13/01/2026, 11:59:40 PM] na minha cidade, o jornal mais popular era conhecido por “pingar sangue”. ele estava em supermercados, barbearias, lojas e postos de gasolina. as pessoas liam os maiores absurdos como se estivessem lendo uma tirinha. e eu termino parafraseando thomas mann em a montanha mágica “será que dessa festa mundial da morte ainda surgirá o amor?”